30 de agosto de 2026

Qual a lógica da imprensa, na campanha pró-Flávio Bolsonaro?, por Luís Nassif

É um método que, de tão primário, torna-se humilhante para o jornalismo. Como se pôde chegar a uma manipulação tão rasteira e escancarada?
Jean-Michel Basquiat

Grandes veículos de mídia articulam apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro, criando falso escândalo chamado caso Lulinha.
Hipóteses para o alinhamento: pressão dos EUA, lavagem financeira e grandes negócios com o Estado.
Entrevista de Lula na Globo focou em fake news e escândalos, sem perguntas sobre planos de governo.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Não resta a menor dúvida sobre a ação articulada dos grandes veículos de mídia em favor da candidatura de Flávio Bolsonaro. As digitais estão evidentes na tentativa de criar um falso escândalo — o chamado caso Lulinha — e equipará-lo artificialmente às investigações sobre Flávio Bolsonaro.

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Trata-se de uma farsa explícita, alimentada pelo ministro André Mendonça e endossada acriticamente pela imprensa.

É um método que, de tão primário, torna-se humilhante para o jornalismo brasileiro. Como se pôde chegar a uma manipulação tão rasteira e escancarada?

Se não houvesse fatores estruturais em jogo, a irracionalidade seria total. A imprensa só floresce em ambiente democrático e com o regular funcionamento das instituições. É nesse ecossistema que ela exerce influência e relevância — fiscalizando e pressionando o Judiciário, o Legislativo e os governos, além de alavancar seus negócios e patrocínios. Em um ambiente selvagem — como tende a ser o país sob a hegemonia do crime organizado e de milícias —, anula-se qualquer veleidade de influência e respeitabilidade do jornalismo.

Para além da miopia conjuntural, quais razões explicam esse alinhamento? Entremos no campo das hipóteses explicativas:

Hipótese 1 — A ameaça externa e o compliance da geopolítica

Conforme detalhei no artigo “A imprensa na guerra híbrida”, uma das hipóteses é a pressão do Departamento de Estado norte-americano.

Em novembro de 2017, no julgamento do ex-presidente da CBF José Maria Marin e de outros dirigentes em Nova York, o argentino Alejandro Burzaco, ex-presidente da Torneos y Competencias e delator da Justiça americana, afirmou sob juramento que Globo, Televisa e Torneos teriam participado de um pagamento de US$ 15 milhões a Julio Grondona, então vice-presidente da FIFA e presidente da AFA. Segundo Burzaco, o pagamento estava relacionado à obtenção de direitos de mídia das Copas do Mundo de 2026 e 2030.

Agora, com as medidas de Donald Trump convertendo empresas norte-americanas em braços diretos da geopolítica de Washington, elevou-se drasticamente o risco sobre as empresas de mídia brasileiras. Como escrevi no artigo:

“Uma reunião entre o Departamento de Estado e executivos; uma audiência parlamentar; uma carta de congressistas; uma declaração pública de Rubio; uma investigação da USTR; ou simplesmente a pergunta de um funcionário americano — ‘sua companhia está financiando organizações envolvidas na censura de cidadãos americanos?’ — pode bastar para que departamentos jurídicos recomendem suspender publicidade. Não seria uma sanção formal. Seria compliance induzido pelo Estado”.

Hipótese 2 — O fator Faria Lima e a grande lavanderia financeira

A gestão de Roberto Campos Neto à frente do Banco Central abriu as comportas para dois tipos de negócios:

O primeiro foi a proliferação desregulada de novas figuras financeiras: Sociedades de Crédito Direto (SCDs), Sociedades de Empréstimo entre Pessoas (SEPs), Instituições de Pagamento (IPs), estruturas de Banking as a Service (BaaS), multiplicação de bancos digitais sem carta bancária tradicional e toda sorte de securitizadoras.

O segundo foi a transformação de parcela do mercado em uma engrenagem de lavagem de dinheiro, atendendo tanto ao crime organizado quanto à blindagem de ganhos fiscais e financeiros de pessoas físicas e jurídicas.

A defesa da candidatura de Flávio Bolsonaro se prenderia, assim, à preservação dessa imensa lavanderia.

Hipótese 3 — O banquete das privatizações e os grandes negócios com o Estado

A aliança com grandes bancos de investimento mira os grandes negócios com o patrimônio público: a liquidação e privatização da Petrobras, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal.

Hipótese 4 – enfraquecimento preventivo

É uma velha tática. A campanha visa ou derrotar Lula ou, na melhor das hipóteses, registrar um Lula vitorioso, porém enfraquecido.

Seja qual for a combinação de motivos, a atual campanha eleitoral é a pá de cal em qualquer veleidade da grande imprensa de resgatar o papel do jornalismo em meio à barafunda de desinformação das redes sociais. Veículos como The New York Times, Financial Times, The Times, El País e The Guardian mantiveram princípios básicos: apuro da notícia, rigor de análise, respeito à relevância factual e recusa a embarcar em fake news primárias — exatamente o oposto do que faz a mídia brasileira ao inflar o falso caso Lulinha.

O jornalismo passa a ser tratado como mero instrumento temporário para viabilizar o próximo salto corporativo do grupo. Cumprida essa etapa, descarta-se a verdade e o próprio jornalismo por desnecessário.

Lula no Jornal Nacional

Um exemplo de como o jornalismo da Globo não respeita nem jornalistas experientes. A maior parte da entrevista de Lula ao Jornal Nacional foi sobre as fake news distribuídas pela Polícia Federal. Todas as perguntas versavam sobre escândalos. Nenhuma sobre planos de governo.

Depois, na avaliação dos jornalistas de O Globo, saiu esse primor.

Thomas Traumann (Nota 2): “Desacostumado a entrevistas duras, o presidente Lula passou a maior parte do tempo na defensiva, respondendo sobre casos de corrupção envolvendo seu filho e ex-chefe de gabinete. Encerrou se perdendo no tempo das considerações finais”

E não havia a alternativa para Lula desconsiderar o baixíssimo nível das perguntas.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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9 Comentários
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  1. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    28 de agosto de 2026 8:33 am

    Infelizmente não se pode almejar nada honesta, da nossa imprensa livre de isenção. A matureza do trabalho deles, é manipular as informções para beneficiar os seus patrões.

  2. emerson57

    28 de agosto de 2026 9:42 am

    “O importante é o que a globo não dá”. ( Rouberto Marinho)

  3. Antonio Uchoa Neto

    28 de agosto de 2026 9:44 am

    Uma lógica bem canhestra, e acanhada (como convém à indigência intelectual reinante na Grande Mídia), seria: ‘qualquer coisa menos o Lula.’
    Isso é basicamente verdade para o ‘primus inter pares’ dessa Mídia, a Globo.
    Se o adversário de Lula na campanha fosse Hitler, a Globo apoiaria Hitler.
    https://www.reddit.com/r/brasil/comments/1av8tjv/o_globo_em_1938_o_fuehrer_confirma_em_sensacional/
    Uma lógica mais ampla diria: ‘nada de gastar dinheiro público com pobres.’
    O que casa bem com os “princípios” editoriais de Roberto Marinho: ‘Não quero negros, pobres, ou desdentados, no Jornal Nacional.’
    https://opovonalutafazhistoria.blogspot.com/2016/05/rede-globo-ordem-de-roberto-marinho-nem.html
    E que casa bem com essa ficção largamente divulgada por essa mesma mídia, a de que existe o tal ‘dinheiro público’.
    Nada nesse mundo é público – tudo é privado. O salário que recebemos é um empréstimo que os capitalistas nos fazem, e que devolvemos a eles no dia seguinte ao recebimento. E ainda pagamos juros a esses filhos da puta – pois o teu salário, amigo de infortúnio, comprará em setembro menos do que comprou em agosto.
    Mas isso é outro assunto. É que me dá urticária ouvir certas coisas, certas expressões. Voltemos à vaca fria.
    O que aconteceu ontem, na tal sabatina do JN, foi uma vergonha.
    E o que vai acontecer hoje, seja lá qual for a postura da Globo, será outra.
    O Nassif se pergunta: “É um método que, de tão primário, torna-se humilhante para o jornalismo brasileiro. Como se pôde chegar a uma manipulação tão rasteira e escancarada?”
    Sendo a ‘elite’ brasileira e sua mídia corporativa o que são, o espantoso seria não chegar a uma manipulação tão rasteira e escancarada.
    A História da Globo (e de O Globo e a rádio Globo, antes) é uma história de manipulação e fraude, rasteiras e escancaradas. Elegante, maquiada, produção impecável, mas manipulação e fraude, mesmo assim.
    A quem me provar o contrário, ofereço como brinde um exemplar de meu livro, “Fenomenologia do Desempregado”.
    Grandes merdas, eu sei, mas é o que tenho a oferecer.
    Parafraseando o coronel Kilgore, em “Apocalypse Now”, um dia essa desgraça dessa mídia vai acabar.
    A nós, restará o estrago feito por ela. Repartido pela quase totalidade da população exposta a esse câncer. Aqui no meu pequeno microcosmo do Engenho Velho de Brotas, Salvador-BA, é algo que eu testemunho todos os dias.

  4. Carioca

    28 de agosto de 2026 9:51 am

    Confirmar-se-á logo mais no depoimento, ou entrevista, de Flávio Bolsonaro.

  5. Pedro Rocha

    28 de agosto de 2026 10:48 am

    A lógica lulista sempre foi assim: “O Grande Líder não pode fazer NADA em relação à mídia a esse, aquele e aqueloutro porque caso contrário dão nele um golpe”. A realidade, passadas duas décadas de Lula e PT é que não houve qualquer antagonismo e mais um golpe está em curso. Não houve qualquer ganho simbólico ou dialético, qualquer ganho prático, só derrota. É o mesmo que jogar com o time todo enfiado na retranca, tomar goleadas e finalizar no gol adversário pouquíssimas vezes. BRILHANTE!!!

    1. Moacir Rodrigues de Pontes

      28 de agosto de 2026 9:06 pm

      O Lula (assim como Getúlio e Jango) não é o super homem. O Brasil é só mais um feudo. O verdadeiro Poder fica mais ao norte. Donde o velho e amarelado Capitão América manda o recado.

  6. André LB

    28 de agosto de 2026 11:51 am

    Pá de cal?

    Nassif, seu conhecimento é prodigioso, mas é batida essa mania de “últimas chances”. Toda hora é uma pá de cal, aqui, um “momento decisivo” ali… não se joga pá de cal em quem morreu há pelo menos uns 20 anos. Mesmo alguém que chegasse à Terra em 2000 saberia que, depois do Gran Circo Mensalão, a seriedade da grande mídia já era.

  7. Paulo Dantas

    28 de agosto de 2026 12:47 pm

    Vão botar seu Jair de volta no poder.

    Anistia.
    Nomeado Chefe da Casa Civil, presidente de fato.

    Tramando novamente para virar imperador.

  8. Conrado Paulino

    28 de agosto de 2026 3:36 pm

    Analise precisa, infelizmente…dá uma sensação de desesperança. A minha leiguice me indica que o 2° fator citado na matéria é o mais poderoso, a farra dos “bancos” e financeiras… ali está a grana pesada. A porteira q o Campos Neto abriu vai ser muito difícil de fechar.. pobre país.

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